Uma palavra antes do ano que se avizinha
Este texto foi escrito para encorajar bons compromissos diante do ano de 2026, que se aproxima.
Mas ele pode ser lido em qualquer tempo — em março, em agosto, no meio de uma semana difícil ou num dia comum —, pois não trata apenas do começo de um ano.
Quero falar com você sobre o começo de algo mais essencial: uma disposição interior.
O início do ano é apenas o pretexto. Um pretexto conveniente, é verdade, psicologicamente forte. Mas ainda assim, um pretexto. O que importa aqui não é o calendário, e sim o modo como decidimos agir diante da vida.
Boécio na prisão: quando a Filosofia ensina a começar de verdade
Boécio escreveu A Consolação da Filosofia em uma situação pouco favorável a discursos otimistas. Preso, injustamente acusado, privado de cargos, honra e futuro visível, ele se encontrava no ponto exato em que muitas de nossas ilusões sobre “bons começos” pareceriam piada de mau gosto.
É nesse contexto que a Filosofia, de maneira personificada, aparece para lhe dizer algo pelo menos desconcertante: o problema não está nas circunstâncias, mas no critério com que julgamos as circunstâncias.
Ao longo da obra, a Filosofia conduz Boécio a uma tese exigente e certamente ofensiva para a sensibilidade moderna: não existe verdadeira desgraça para o homem virtuoso.
Tudo o que lhe acontece — inclusive a perda, o fracasso, a mudança abrupta de rumo — pode ser integrado ao seu aperfeiçoamento moral.
Não que o sofrimento seja bom em si, obviamente; mas o homem bom sabe o que fazer com aquilo que lhe acontece.
Por que a fortuna só existe para o homem bom
O ponto mais desafiador do argumento da Filosofia é que aquilo que chamamos de “fortuna” não é boa ou má em si mesma. Ela só se torna boa ou má conforme o caráter de quem a recebe.
A mesma situação externa produz efeitos opostos em pessoas diferentes. Para o homem virtuoso, a fortuna favorável é ocasião de gratidão e retidão; a adversa, ocasião de fortalecimento, correção e lucidez.
Por sua vez, para o homem vicioso, a fortuna favorável alimenta o vício; a adversa revela ou pune aquilo que já estava desordenado.
Por isso, a Filosofia postula algo aparentemente paradoxal: a fortuna nunca prejudica o homem bom. Tudo o que chega até ele (inclusive aquilo que chamamos de “começo difícil”) concorre para o seu crescimento.
É nessa chave que o sofrimento de Boécio na prisão é reinterpretado, deixando de parecer uma injustiça última, e passando a ser vista com olhar pedagógico, capaz de reorganizar seus afetos, seus desejos e sua visão de mundo.
O que isso tem a ver com o início de um ano
Boécio nos ajuda a deslocar o foco do entusiasmo inicial (tão comum no começo do ano!) para algo mais sólido: o compromisso disciplinado com a razão e com o bem.
A verdadeira boa fortuna não está na empolgação, mas na constância. Não está na promessa grandiosa, mas na decisão reiterada.
De fato, início de ano é um momento propício para assumir bons compromissos, uma vez que nós mudamos nossa disposição diante do tempo. Nada como a sensação de página em branco, de possibilidade, de reordenação...
Mas a maturidade consiste em perceber que novos começos não pertencem ao calendário. Eles pertencem à vontade. A qualquer momento podemos decidir ser mais atentos, mais disciplinados, mais virtuosos.
E é exatamente assim que a vida deve acontecer.
Cair, claudicar, voltar: o gráfico precisa ser ascendente
Ao longo do ano, não caminharemos em linha reta. Vamos cair. Vamos claudicar. Em alguns momentos, aderiremos à virtude; em outros, ao vício. Vamos nos arrepender, corrigir o rumo, retomar o esforço.
O critério não é a perfeição instantânea, mas a tendência geral do movimento positivo. O que importa é que o gráfico seja ascendente, ainda que irregular. Que estejamos, no conjunto, rumo ao bem, rumo ao desenvolvimento, rumo à maturidade.
Se fizermos isso, talvez possamos dizer que honramos a lição da Filosofia oferecida a Boécio na prisão.
E, mais importante ainda, que honramos a Deus, que não exige de nós entusiasmos momentâneos, mas fidelidade perseverante.